Bingo!
Aquele disco do The Cigarettes.
(voltando a escrever aqui só pela vontade de fazer todo mundo escutar o disco)
O que dizer de um pequeno acontecimento que nasce inesperadamente? Ainda mais quando um milagre não é para soas como perfeição, mas como capacidade encabulada? Como respiro no desabamento? Como o oxigênio no meio de todo pó? O ano era algo como 1997. Talvez tenha começado a se gestar antes disso, lá em 1994. Mas eram os anos 1990. A esperança tinha sido colocada em modo de espera – soneca, só mais 10 anos. Nesse entretempo as crianças só podiam brincar com os fantasmas do que não aconteceu. Se os signos explodiram na modernidade, o que se diria deles no capitalismo tardio, em que quem não participava do triunfo, simplesmente teve os signos das utopias apagados como estrelas mortas?
Aglutinar os cacos do mundo acontecem de várias maneiras. E uma delas é descobrir como juntar signos ou pelos signos toda sorte de pessoas. Mas e aqueles que nunca encontram pertencimento? Os tristes e os derrotados? Os esquisitos e os desesperados? Não sei como dizer de uma maneira pouco direta, mas me parece que Bingo, do The Cigarettes, foi aquela resposta silenciosa que sobrevive no subterrâneo da música brasileira. Um disco para aqueles que viveram os anos 1990 já sob o signo de saturno, da melancolia e do sorriso que nasce em alguns momentos.
The Cigarettes não foi feita para ser uma banda grande, apesar de muita gente já ter tocado na banda: o que é o sinal mais de uma comunidade do que de uma galera que segue um grande ídolo. É uma banda que apostou em seu fracasso desde o início e, por isso, parece que nasceu da falta de expectativas em um mundo sem expectativas. Então, nunca foi e nem poderia ser uma banda que se tornaria visível à ideologia e por isso é o canto de um naufrágio. Por outro lado e por isso, também, Bingo é um dos discos mais incríveis da nossa MPB.
Fiz esse comentário uma vez e o Marcelo Colares – que é esse homem-banda – me disse que ainda faltaria muito para a banda ser entendida dessa maneira. Cantar em inglês? Trazer ao brasil o lo-fi, indie, barulho, sem colocar um cadim assim de carimbó? Como assim MPB? Se nossa música se caracterizou por uma constante moldura de mistura, importação (e exportação) e recriação como surgimento do novo, são os encontros e possibilidades que fazem nossa música. Esperar algo de “brasilidade” para ser incluído na MPB é buscar um essencialismo que acredito que ninguém conseguirá, de fato, defender, apesar de que é algo que vemos sempre por aí. Aliás, essa defesa de um certo brasileirismo difuso em nossa produção às vezes me parece o mais afastado do que poderíamos pensar sobre nossa música. (Um tempo atrás um edital do CCBB perguntava o que a obra tinha de decolonial e eu queria responder mais ou menos assim: “faço coisas a partir do Brasil, qualquer coisa que for feita aqui vai ser decolonial”). E, sem me estender muito, defender essa brasilidade, além de tudo, retoma uma ideia de estado-nação que é muito mais motivo de nossas opressões do que das nossas liberdades. (Ou, como pensar a MPB, para além do estado-nação?).
De todo modo não é sobre isso que queria falar aqui, mas sobre o disco mesmo. Bingo parece um disco simples, se não prestarmos atenção. E tem a ousadia que sempre pode dar errado em pessoas tão jovens, como eram na época, e que podem, ainda bem, abrir uma canção com um verso como I’m naturally sad de uma forma que é bonita e não constrangedora. O disco reúne nas faixas um aglomerado de relações que junta Scooby doo à Lautréamont, Poe aos Smiths e quase tudo sob a tutela da tristeza, do amor e da amizade. Não me parece à toa que diante de um mundo em colapso a solução seja encontrada nas tentativas de relação, algumas vezes contempladas e em outras desastradas. Enfim, o amor, a solidão e a tristeza aqui não são uma inocência juvenil ou mesmo uma falta de inspiração nos eventos do mundo: eles são uma resposta ao mundo, a esse mundo sem utopias. Não existe nenhum traço de uma Sophie von Kühn por aqui, mas encontros e desencontros em uma tentativa de sair da alienação do mundo, via amor ou drogas, tanto faz: é preciso encontrar uma comunidade, pequena que seja, que a gente faça parte e que faça parte esses outros que se parecem tanto com a gente.
E é mais ou menos por isso que o disco, muitas vezes, pode parecer descompassado, mas, na verdade, o baixo, a guitarra, a bateria e as vozes parecem sempre em busca de encontrar e perder a harmonia entre si. Underlights, que parece reunir as melhores qualidade do disco é muito precisa em sua falta de precisão, em sua tentativa de costurar uma música que vai se juntando e se desmontando, criando harmonia pela desarmonia, com ecos de vozes que não acompanham a guitarra e sobreposições que indicam a tentativa de recuperar um mundo que escapa das mãos. You know the time is running fast parece ainda o sintoma que só ia se intensificar nos próximos anos e o sussurro gritado de like a finger at the hand, everything has a place (e a voz no fundo, que tanta cantar junto). Mas onde é esse lugar que pertencemos?
Vendo aquele documentário dos Beatles, sobre o Let It Be, o que mais me encantou foi que, mesmo aquela banda que já seria a maior do mundo, eles pareciam tentando descobrir como fazer. Tentar descobrir como fazer, parece que era mais ou menos isso também o que estavam tentando fazer no disco: como fazer isso por aqui? Descobrir caminhos me parece sempre muito mais mágico do que aqueles que já sabem como as coisas têm que ser feitas. E é esse tipo de magia que me parece em falta no mundo de hoje. Voltar ao Bingo me faz voltar mais ou menos a essa pergunta: como fazer? E essa parece ser uma força que ecoa mais forte hoje do que nos anos 1990.


