Fúria
Zine novo, experiências antigas.
Fúria é meu nono zine depois de quase 25 anos produzindo, espaçadamente, um e outro. Alguns momentos mais intensos – os três primeiros foram feitos em um intervalo muito curto – e outros que foram surgindo, quando dava, quando tinha ideias, de tempos em tempos. Mesmo com longos intervalos, fazer zines sempre foi das coisas mais prazerosas que fiz na vida, uma mistura de experimentalismo e trabalho manual, trapaça com a reprodutibilidade técnica e uma relação muito íntima com todo o processo. Mas, para falar melhor disso, eu devo fazer um recuo.
Minha relação com zines surgiu dentro de um contexto muito específico, que era a cena punk/hardcore do final dos 90 e início dos 00. Tinha algo ali que me interessava até um pouco mais que as bandas e seus discursos: uma espécie de possibilidade de troca de ideias e engajamento e a produção D.I.Y. que me apaixonou. E não era, também, só uma questão de discursos: cada zine tinha sua maneira de ser, estética e eticamente, pensando em formas e formatos que fariam sentido nessa união texto-palavra, realizado de uma forma um pouco precária e possibilitando que os discursos circulassem de maneira muito mais dinâmica. Não era livro, mas não era panfleto. Quase tudo era na base do xerox e então o apelo tinha que ser fabricado a partir de um instrumental que fosse ao mesmo tempo barato, mas também bonito e que sustentasse o texto que estava ali.
Bendita, Água e O Idealista, para ficar só em três exemplos, continham discursos fortes, mas se abriam a possibilidades de produção e produziam suas próprias possibilidades. Era algo muito distante desse zines produzidos por designers – bonitos que só, é verdade – mas era algo muito mais forte para mim: descobrir como fazer era mais importante do que fazer do jeito “certo”, correto, bem acabado. A partir do precário se produziram coisas lindas, significativas, contundentes e admiráveis.
Nesse sentido, para mim, zine é um espaço de descobrir como fazer. E essa arte, literatura, discurso, o nome que queira dar, me interessa muito no sentido de descoberta de como fazer, a partir dos instrumentos disponíveis, nunca se contentando com as formas e formatações, dicas e sugestões, arcos de heróis e lições de escrita ou estética normativas. Enfim, zines era a fuga da normatização em busca de uma abertura para o possível e para ideias que poderiam ser novas, discursivas ou não.
Foi nesse espaço que fui tentando criar meus zines – como forma de descobrir como fazer, com mais ou menos sucesso. Por isso as escolhas de papel, uso de xilogravuras, colagens, textos, se misturam como possibilidade, sem nunca gastar muito $, sem nunca deixar de reivindicar alguma coisa que pareça uma exploração, invenção ou o mínimo de diferente.
Ao explorar isso, eu consegui fazer essa produção ser sempre distribuída gratuitamente. E o fato de poder ser de graça ou muito barato é também uma coisa que me interessava. Com isso se criou um circuito muito interessante e não era incomum eu chegar em casa e encontrar uma carta pedindo um zine, vindo sei lá de onde. E eu, particularmente, gostava dessa relação postal que foi esquecida nos dias de hoje – eu sempre tentei colocar os zines nos correios, porque isso sempre me pareceu mais divertido e para isso eu pensava em formatos que podia ludibriar os Correios como, por exemplo, a carta social de R$ 0,01. O fato de ser barato também permitia que ele abrisse a possibilidade para textos não fechados, redondos, mas em busca de uma coisa mais imediata. Um zine deveria ser uma chuva forte e breve e não um rio que corre constante. E ele está pronto para se perder - ele não é exatamente um item arquivado por aí.
Essa produção que vivenciei, entre os anos 90 e 2000, ainda tem que ser descoberta. Água, da Carol Pfister, é um zine que deveria sair em uma edição bonita, importante, fac-símile em qualquer momento, por exemplo. E muito das discussões que ainda repercutem estão lá, nesse período, de forma mais ou menos bem realizada: veganismo, não-monogamia, pós-colonialismo, direito à cidade, capitalismo tardio, direitos autorais, etc. estão presentes de forma contundente, feito da maneira como dava, por jovens descobrindo o mundo, muito diferente de um contexto de “intelectuais orgânicos” ou acadêmicos de ocasião pós-2013.
Fúria, contudo, é um zine feito com dinheiro – eu ganhei um prêmio para que ele fosse realizado. Mas não por isso ele foi feito de maneira muito diferente: a partir dos instrumentos que tinha – e da grana envolvida – pude pensar em outras possibilidades e abordagens, em busca de soluções literárias e gráficas. Então até tipografia pode estar presente agora. E mantém o mesmo espírito manual – cansativo demais algumas horas, como carimbar mais de 1200 folhas. Mas esse manual intervindo no mecânico é interessante: nenhum vai ser igual ao outro e sempre tem a possibilidade de um erro: vai que esqueci de colocar uma fotografia ou adesivo no pacote; os carimbos não vão estar no mesmo lugar e pode até ter folhas trocadas no caminho. Enfim, a fadiga e a repetição produzem suas diferenças. Mas isso faz parte. E é parte da graça e tem algo de único em todos eles, de alguma maneira.
E, bom, tendo grana, a coisa que era pra ser a reprodução de um texto mais antigo meu, o Fúria, acabou ganhando outros elementos e quase um zine inteiro novo, os Poemas palestinos - textos que se juntam e se complementam. Mesmo sendo um texto mais antigo, acho que ele ainda faz sentido. Tem algo de drama nele, assim como nos poemas. E diz um pouco de uma reação a um mundo mais imediato – ou da falta de reação.
E, bom, para não perder a tradição, vou enviá-los pelos correios. Mas também inovando, em fevereiro deve ter um lançamento com distribuição gratuita. Então, quem for de BH, pega comigo no pic-nic a ser realizado. Quem não for de Belo Horizonte, pode preencher o formulário aqui. Não são tantos, mas acho que dá pra contemplar um punhado de pessoas, então só peça se tiver interesse mesmo.
Ah! Tem um episódio do podcast Balando e Fúria que fala muito do contexto que escrevi anteriormente e que é incrível:



